Wednesday, February 14, 2007

Quero ser grande e De repente 30

Eu sei que esta análise está no mínimo três anos atrasada, mas só agora vi essa comédia romântica hollywoodiana que em breve estará na sessão da tarde. Por coincidência, vi Quero ser grande na mesma semana, também na televisão.
Os dois filmes têm argumentos parecidos: adolescentes por volta dos 13 anos pedem para serem mais velhos, devido aos percalços desta fase enjoadíssima. A principal diferença entre os filmes é que no primeiro se trata de um garoto e o segundo de uma menina.
Acredito que “Quero ser grande” tenha servido como ponto de partida para os criadores do outro filme. Uma homenagem, talvez. Os anos 80, que pertencia à fase adulta de um, no filme mais novo, é uma lembrança, uma nostalgia. E quando a personagem, Jenna, completamente desnorteada, se veste para uma festa como uma menina de 13 anos, seu chefe a elogia e diz que ela parece uma mistura de Barbie e Spears, provando que esses anos de néon nunca nos abandonaram de todo. Aliás, uma festa em que o “adulto” se veste de forma pouco convencional também acontece em Quero ser grande. Assim como o sucesso profissional devido à inocência. E um amor, é claro.
No entanto, o que parecia uma cópia, sem nenhuma originalidade, na verdade, uma “chupada” aproveitadora de um grande sucesso antigo, acabou me deixando acordada até às 2 e pouca da noite e continuo, para escrever esse texto.
Primeiro, “quero ser grande” é antes de tudo um filme infantil. Ele tem treze anos e não pára de brincar, talvez como os meninos ainda são infantis nessa idade, diferente das mulheres. Tom Hanks vira Tom Hanks, mas continua pensando como uma criança. Brinca e decora a casa como se fosse uma criança. Seu crescimento nada tem a ver com amadurecimento. Seu rosto chega a ser idiota, como se o personagem tivesse problemas mentais.
Em De repente 30, a protagonista cresce, mas apesar de ainda ser uma menina, sabe lidar com seus problemas da fase adulta. Pior, se depara com 17 anos de história da qual não se lembra. No entanto, a coreografia de Thriller ainda está fresquinha na sua cabeça. Mas o verdadeiro pesadelo é descobrir que nesses 17 anos ela tem sido algo que nunca quis ser e que se arrepende amargamente. Sente-se uma má pessoa, pede para dormir na cama dos pais para que eles a protejam. Não é uma menina de 13 anos que pede isso. É uma adulta arrependida e magoada consigo mesma, pelas escolhas que havia feito. Quantas vezes não queremos dormir na cama da mãe, como se isso fosse capaz de apagar todos os problemas, como antigamente? Daí em um problema muito comum na cultura católica, muito presente no imaginário brasileiro: as noções de culpa, pecado, perdão e redenção ou queda.
Para mim, De repente 30 fala de tudo isso.
O que Hollywood quer nos mostrar com esse filme que com certeza, o tempo tratará de esquecer é que somos responsáveis pelos nossos atos, mesmo os inconscientes. Mas também, de nada adianta chorar o leite derramado. Se culpar, sofrer, nada pode adiantar, e na maioria das vezes não adianta porque na vida real não voltamos no tempo.
Nossa heroína aqui consegue, depois de se arrepender, descobrir que não tem amigas, ficar boazinha e reencontrar o amor da adolescência que ela própria desprezou, típicos erros que só cometemos por causa da idade.
Quando tudo parece bem, um happy end à vista, vemos a queda: traição por parte da “amiga”, insucesso no trabalho e perda do amor verdadeiro, simplesmente “porque fazemos as nossas escolhas”. Queda. Não se sai impune das coisas que se comete.
Mas... Hollywood é mágica e é capaz de voltar no tempo. Nossa queridinha é capaz de voltar para aquele armário-túnel do tempo, agarrar seu amor ainda gordinho e ser feliz para sempre com uma modesta vida em New Jersey.E nós, voltamos no tempo? O tempo para nós só anda pra frente impiedosamente. E nós, particularmente, meninas, educadas nas sessões da tarde que provam que tudo é possível ficamos assim, órfãs de magia na vida real. Parece que a magia, só vem com um amor capaz de arrepiar os pêlos 24 hs por todos os anos. Mesmo esse tipo de magia, existe? Amor assim existe ou só dura os 90 minutos das comédias românticas? Então por que fazer filmes? Para repetir a ilusão de que a mágica vai acontecer na sua vida?
Como a personagem de De repente 30, que suspira aos treze anos com o beijo de Burt Lancaster e Deborah Kerk em “A um passo da eternidade”, e com certeza, minha avó suspirava com este mesmo filme e talvez a minha neta suspire.
Fazer filmes para criar a ilusão romântica de que a vida vai ser cheia de acontecimentos improváveis e truques do acaso que só nos beneficie? Continuar a importante função de cinema-ópio?

Pode ser. Fazer cinema para que ainda se acredite em magia. Fazer cinema para que o romantismo não acabe, fazer cinema para se perdoar dos próprios erros. Afinal, o que não funciona como na tela, temos a desculpa de que tivemos um péssimo professor.

Acredito que fazer cinema é importante também por causa dessas pequenas coisas. Nada de revolucionário e chato ou ininteligível, impenetrável. O cinema para mim deve ser sentido, refletido e amado. Além disso, deve ser sedutor. Deve ser capaz de tirar o sono, deve instigar um texto voraz às quase 3 da manhã. Cinema deve ser mais Truffaut e menos Godard.