Tuesday, September 11, 2007

O amor nos tempos do noir

No silêncio da noite, além de muitos outros méritos, é um filme de personagens. Principalmente de um grande personagem: Dixon Steele, interpretado por Humphrey Bogart. Steele, obscuro, de alguma maneira, violento, impulsivo e irônico. Na maior parte do tempo, não esboça emoção alguma, mas, constantemente, irrompe em ataques de raiva.
Ele parece ser reapresentado cada vez que uma faceta nova aparece na tela: primeiro o Dixon irônico, depois o valentão, depois o artista, o violento, o apaixonado. A figura do roteirista encarada por Bogart, apesar de ser chamada várias vezes de celebridade, é completamente desglamourizada. Dixon, por vezes, se mostra assustador, sombrio, e não só devido a sua violência, mas a sua frieza. O momento em que relata o crime, com perfeição, é crucial, pois divide a platéia, assim como o casal que ouviu o relato, entre os que acreditam ter ele próprio realizado, e os que atribuem a sua experiência em matar pessoas em roteiros, como ele mesmo explicou.
No filme, os personagens não aparecem sem motivo, eles sempre têm uma função na história. Frances Randolph, a mulher que se oferece para Dixon no início da história, no final, será importante ao revelar que será a atriz do roteiro de Dixon, provocando o penúltimo ataque de raiva do personagem. A faxineira que deveria aspirar os apartamentos, mas nunca consegue, sugere que eles se casem para que ela consiga limpar com tranqüilidade, e Dixon aceita o seu conselho.
Também o agente de Dixon, imaculado durante o filme inteiro, é importante, fora outros motivos, porque Dixon, revoltado, soca-o, quebra os seus óculos, e causa horror a todos que assistem à cena. E sem esquecer do fabuloso Téspio, que representa um ator decadente, de uma Hollywood decadente de antes da guerra. Até algumas piadas aparecem para mostrar o contexto em que se passa a história como o “like show business, there is no business”.
Ainda sobre personagens, Laurel Gray (Gloria Grahame), merece destaque por ser muito bem construída. Uma mulher forte, que sabe o que quer e que não vê no casamento a solução rápida para seus problemas. Já deixou de se casar com um ricaço, e mesmo apaixonada, não consegue confiar em Dixon. Pode ser mulherzinha e mulherão ao mesmo tempo, assim como Dixon é canalha e apaixonado. Esses personagens têm dualidade e, por isso, são tão interessantes.
As seqüências são encadeadas com situações de causa e efeito, como, por exemplo, o livro que Dixon precisa adaptar está sendo lido por Mildren, que, por isso, é convidada para contar a história. Na entrada de casa, Laurel cruza o caminho, deixando a sensação de femme fatale. Por causa desse encontro, Laurel é a única testemunha de Dixon, eles se conhecem no depoimento, e assim por diante. Sempre há uma deixa na cena anterior que leva à seguinte.
Os diálogos são parte importantíssima nesse roteiro. São eles que dão ritmo ao filme, que apresenta poucos momentos de silêncio. É nos diálogos também em que se “plantam” pistas do que ocorrerá em seguida: quando o detetive de polícia fala para Dixon que ele encontrará a garota certa, ou quando a fala escrita para o roteiro que Dixon está adaptando, acaba servindo para a sua própria sorte ao final do filme.
A desconfiança do Chefe de Polícia também é importante porque contamina a todos, até à Laurel. Além disso, essa desconfiança traz consigo uma tensão flutuante. Nos momentos em que a desconfiança da idoneidade de Dixon é maior, maior é a tensão no filme como um todo. O mesmo acontece quando Dixon desconfia de Laurel, aumentando, mais uma vez, a tensão. Personagens como a massagista de Laurel e a esposa do policial implantam a dúvida sobre o caráter de Dixon, contribuem para a decisão de Laurel.
Ao mesmo tempo, existem pessoas que gostam de Dixon e confiam nele como o seu agente e o policial ex-companheiro da guerra. O filme é balanceado: ao mesmo tempo em que há tensão e desconfiança, existem momentos leves, cenas de amor e lealdade. Assim, o filme se destaca da maioria, por fugir do maniqueísmo e dos clichês do cinema. O assassinato, por exemplo, representa apenas o primeiro conflito e o pretexto para o casal se encontrar, e segue latente como motivo da desconfiança, mas suas pistas, suas causas, seus suspeitos não são analisados como nos filmes de detetive.
No jogo de transparência e obscuridade, ao caminharmos apara o final descobrimos que a pessoa mais clara no casal é Dixon. Ele não esconde quem é, o que quer, é “dinamite”, mas uma boa pessoa. Já Laurel teme o noivo e não revela, se programa para viajar sem que ninguém saiba, trava conversas com amigas contra seu amado. Enquanto ele parece ter encontrado o paraíso ao seu lado, para ela a felicidade parece nunca estar completa.
Os hábitos dos personagens têm uma função importante. Dixon, por exemplo, deixa o telefone tocar várias vezes durante todo o filme. Portanto, não se estranha quando ele não atende ao telefonema em sua casa, com a notícia da confissão do assassino. Outra ação recorrente é que Dixon sempre procura retratar suas inconseqüências: manda flores para Mildren, dinheiro para o sujeito que apanhou, oferece uma gravata nova a seu agente em quem acabou de bater.
No entanto, esses atos somados fazem Laurel tomar a decisão firme de deixá-lo, bem de acordo com a personalidade que lhe foi construída. A partir daí, sucessões de escolhas erradas acompanham os personagens. É a hora errada para casar, a hora errada para se descobrir a verdade, a hora errada para o telefone tocar. A tensão variável que acompanhava a história nesse momento transborda, trazendo efeitos drásticos. Dixon e Laurel nunca mais poderão ser felizes, é a história de amor ao avesso.
No silêncio da noite, em certos momentos, discorre sobre o ato de escrever. Em uma das vezes, Dixon afirma ser a cena de amor algo mais, não apenas o beijo, mas, por exemplo, ele preparando para ela com carinho o café da manhã, o que acontecia no momento. Uma crítica certeira sobre o clichê do romantismo. Dixon e Lauren são diferentes, fogem do lugar-comum. Eles, apesar do aparente anti-romantismo, viveram o pouco tempo que se amaram, e deixaram uma das mais belas histórias de amor do cinema.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home