Tuesday, January 29, 2008

4 meses, 3 semanas e 2 dias e PS: Eu te amo



A princípio, os dois filmes nada têm a ver, a não ser o fato de terem mulheres no elenco principal, e de que eu assisti aos dois no mesmo fim de semana. O primeiro filme, romeno, cru, mostra uma realidade dura, da qual não há escapatória, nem romance nem cor. O título esperto 4,3,2 não é à toa e muito interessante de se descobrir de onde ele veio. Passado na Romênia de 87, à beira de um colapso do comunismo, com seus tons cinzas, sua iluminação natural e pouca, uma direção de arte sóbria, trazem ao filme maior densidade, e uma atmosfera única. Os seus planos longos, geralmente em plano médio e muitas vezes acompanhando os personagens, aliado a diálogos realistas e cruéis, com uma realidade cruel, faz do filme um mergulho naquele momento horroroso pelo qual aquelas mulheres passam. É cruel (necessária a repetição) assistir ao filme, é uma angústia, e é exatamente essa a intenção do diretor. O filme é terrível, mesmo sendo sutil, mesmo omitindo crueldades, não só em imagens, mas também em diálogos. Só que chega um momento que essa hostilidade passa dos limites. O que estava sendo apenas sugerido, sutil, passa a ser escancarado, a crueldade aumenta, acompanhamos todos os passos da protagonista e sofremos em demasia com aquele mundo. O filme acaba com o que eu considero ser uma brincadeira com o público deixando bem claro onde está a câmera e que por isso, não devemos esquecer de que o que foi visto é cinema. Por mais real que isso possa ser. Genial, mas torturante de assistir, principalmente para mulheres.
Já PS: Eu te amo é mais uma comédia tragi-romântica sobre uma mulher, a maravilhosa Hilary Swank, que perde o jovem marido, o não menos maravilhoso Gerard Butler. Já dá pra sentir as diferenças quando o casal principal é interpretado por pessoas que não se encontram na vida real. São atores belíssimos, com a maquiagem e o figurino perfeitos e uma luz que nada mais faz do que realçar essa beleza. Bem diferente daquele sombrio 87 na Romênia, temos a Irlanda com lagos, campos verdes, pôr-do-sol e homens lindos.
Enquanto 4,3,2 é sobre um aborto clandestino, PS é sobre um homem morto que continua a mandar cartas românticas e fazer incríveis declarações de amor. No outro filme, os homens não trazem nada de bom, apenas a dor, ou a cobrança. As pessoas apenas seguem vivendo e a protagonista abdica de suas vontades, sua dignidade e até de seu corpo para ajudar as outras pessoas. O medo impera e o desamparo é quase total.
No filme americano, a insegurança é que aparece, mas num lugar bem confortável, com o aconchego de família e amigos. Com alguns clichês, e outros elementos originais, PS consegue ganhar o público e convence com sua história de amor. Assim como 4,3,2 convence com sua história de horror. E o mais interessante é realmente a resposta do público que compra as duas histórias e por isso apresenta reações diferentes.
Como já se falou, no filme romeno, as pessoas ficavam enojadas, agustiadas, amedrontadas, e as mulheres eram as que mais se impressionavam com a história. Já em PS, as mulheres também se impressionavam, mas de uma outra forma: o filme tocava a sensibilidade delas através do romantismo exagerado e toda uma mitologia de príncipe encantado que foi criada no universo feminino. O homem morto era o príncipe moderno com suas canções, seus músculos, seu “castelo” na Irlanda, seu “cavalo branco”, já que ele era um motorista de limusines. As mulheres entraram a fundo naquele mundo irreal e choravam aquele amor perdido, esse estereótipo perfeito do amor romântico, como se fosse o amor perdido de cada uma. O que a sala de cinema não deixa pensar é que, na verdade, não existe, tal coisa, e sempre que se vê esse estereótipo, os mais românticos sentem uma perda do que não existe, ou, no mínimo, uma projeção romântica exagerada de algum amor perdido. E a choradeira era geral no escuro. Chorava-se por tudo, por cada carta romântica, pela descoberta de um novo caminho, por um primeiro encontro perfeito, por clichês e mais clichês apresentados na tela, que na verdade, representam muitas fantasias românticas presentes nas pessoas. Chorava-se por si, por não ter ou ter perdido esse amor de cinema.
Muito diferente do filme europeu, nesse, as pessoas gostavam dessa “tortura” de chorar um amor perdido que não existe, de se emocionar com a história, que não cansa por mais longa que seja, porque atende de certa forma, às expectativas das pessoas, não no sentido de deixar o filme previsível, mas sim, agradável. 126 minutos mostrando um sonho dourado, passam mais rápido do que 113 de um pesadelo infernal.
Isso é que o cinema americano fez com o público, o moldou com sonhos e expectativas capazes de deixá-lo muito mais à vontade com suas histórias. Mas ainda assim, fico com o cinema americano, seus mitos e fantasias, do que com a dureza de outros lugares. Lembram-me Afrodite, Eros, Macondo, Buendía, Camelot e outros lugares fantásticos para os quais sempre faço questão de viajar.

O amor nos tempos do cólera


O filme é apenas um relato e perde totalmente a força do romance fantástico de Gabriel García Marquez. No entanto, Javier Barbem rouba a cena mais uma vez e consegue transformar o personagem apagado em um divertidíssimo conquistador. Fernanda Montenegro está bem como a devotada mãe latina e o casal principal quase deixa a desejar. O que incomoda mais que tudo é o inglês onipresente. Parece bobeira, mas o filme ser em inglês faz perder muito do charme do livro em espanhol, inclusive a sua atmosfera. Algo que não acontece com Pantaleão e as visitadoras, por exemplo. Nesse filme, Lombardi, o diretor, consegue construir uma atmosfera que condiz com a selva amazônica, e com o Peru. Em o amor nos tempos do cólera, parece apenas que se cumpre o protocolo de uma história a contar. Todos os tambores e calores que ecoam na memória de quem leu o livro, aquele amor forte que por causa de um cheiro, deixou de existir, aquela viagem interminável pela selva, tudo ou passa muito batido, ou simplesmente não está no filme, como o motivo do fim do amor. Reconheço que é difícil fazer uma adaptação, quanto mais de García-Marquez, e como é impossível colocar tudo na tela, deve-se escolher o que alguns elementos do filme para a adaptação. No caso do filme, privilegiou-se a cronologia da história, e deixou-se de lado vários elementos menores, como a história do papagaio, e, repito, a viagem para o interior, a frenético e astuta correspondência entre eles. Elementos pequenos, sim, mas que tornam a história colombiana, e mais, um legítimo produto de seu autor.
Mas por incrível que pareça, o filme não é ruim, só não é maravilhoso como é o livro. Conta a história e diminui o amor inicial, até para ser verossímel, já que o filme privilegia a parte seguinte do livro. Mas perde e perde muito das palavras do autor. É um filme que dá o seu recado, mas não deixa lembranças.