Friday, July 25, 2008

Nome Próprio


Instigada por toda discussão a cerca do mercado do filme nacional, o desejo de uma política do audiovisual auto-sustentável, e curiosa sobre o filme, fui assistir a Nome Próprio. Confesso que fui hoje para não ceder à pressão da panfletagem “ir no primeiro final de semana”.
O filme retrata muito bem a geração de atual, suas gadgets eletrônicas que preenchem um vazio reinante em todos os espaços. Camila é uma jovem “bem-resolvida” que faz de si própria personagem num blog, cultuado por adolescentes. Sua vida é pública, num espaço onde viver e escrever se confundem. Camila é uma espécie de Carrie Bradshaw heavy metal, sem glamour e com muita dor, por tudo que ela mesma provoca. No entanto, não há outra maneira de viver, nem de escrever, é com dor e cicatrizes que se faz uma história.
O que Murillo Salles consegue captar muito bem é esse sentimento de vazio, de desconhecimento do mundo, das pessoas, onde tudo é fugaz, e escrever se torna o único caminho confiável para se seguir.
Leandra Leal se entrega a essa personagem nada previsível, e humana, acima de tudo. O filme é grandioso também porque ela está uma grandiosa atriz, que mesmo sendo tão imprevisível, a identificação é inevitável, e nos aproxima ainda mais da narrativa.
Ponto também para a Arte do filme que consegue demonstrar com cenários minimalistas e poucos objetos cênicos esse clima de êxtase e angústia do filme.
É uma pena que a exibição estivesse tão ruim e por muitas vezes, não era possível ler as frases que surgiam na tela. E voltamos ao mesmo problema do início do texto, e em que pé está o cinema nacional. Nesse assunto, prefiro estudar ainda mais um pouco para publicar uma opinião, não sou tão corajosa como a Camila do filme, que transborda em palavras na internet. Mas uma coisa posso falar: vão ao cinema ver Nome Próprio porque é muito bom, e infelizmente, terá uma vida curta de exibição, assim como Personal Che, Fôlego e outros que só aparecem poucas semanas nas telas, e (muitas vezes) desaparecem sem deixar rastro.

Tuesday, June 24, 2008

Sex and the city - o filme!!!!!!


Meus queridos companheiros e órfãos do seriado. Não é exagero nenhum dizer que “Sex the city – o filme” é como reencontrar grandes amigas, quatro anos depois, sem notícia. Tanto é que o que mais ficou da sessão no dia da estréia foi uma nostalgia, uma saudade uma vontade de ter o seriado toda semana. Senti um vazio ao final do filme. Foi um consumo emocional intenso durante duas horas e meia, para depois acabar o filme e me tirarem novamente da companhia daquelas quatro.
É verdade, não foi a mesma coisa da série, foi diferente, mas quem permanece os mesmos depois de quatro anos? Só os chatos não mudam. Elas mudaram. Elas estão na fase dos 40, são todas mulheres compromissadas, o espírito do sexo casual ou da busca pelo amor incondicional não está no filme, pois elas, a princípio, já encontraram. E como dar continuidade se Carrie está com Big, Samantha com Smith, Charlotte mãe e Miranda com Steve? Foi o happy end perfeito para o seriado que precisou ser trabalhado no filme, daí, alguns afirmarem ter maculou a série.
É verdade, elas estão bem submissas, perdoam traição, engordam para não trair, casam e engravidam, algo que seria impossível na série. Mas não acho que quebre o espírito. O sentimento de fã fala mais alto, a emoção transborda para os fãs, são 158 minutos sofrendo por toda uma temporada, de uma só vez.
Não posso dizer que o filme é bom, digo que apenas poucas vezes fiquei tão abalada por um filme. E abalada não por questões estéticas, mas puramente emocionais e talvez nostálgicas. O filme não deve ser analisado apenas como um filme, que não avançaria muito em relação ao gênero ao qual pertence, mas como uma comunicação necessária a todos os fãs da série. É um pouco um pedaço de cada fã, que sempre vibrou para que acontecesse o que acontece na telona. Sem esquecer que é antes de tudo, uma ode à amizade e ao amor, que nunca saem de moda, e fazem muito bem à alma.
Portanto, reunirei novamente minhas amigas para rever o filme ainda essa semana, assim como fazemos com todos os episódios que vemos reprisados diariamente na TV. Sonhando um dia ver o filme de Friends ou Seinfeld, quem sabe? Se a moda pega...

Irina Palm


De histórias de prostitutas o cinema está cheio. A prostituta de bom coração que não pertence àquele lugar e faz aquilo para sustentar a família, e se relaciona com seu cafetão. Uma argumento batidaço, em nada original, lembra muito Salão México, de Emilio Fernández. No entanto, Irina Palm consegue ir além.
O neto e sua doença mortal são apenas uma pequena introdução para que Maggi (Mariane Faithfull bem canastrona) procurasse um emprego de hostess (atendente), um eufemismos para puta, como informa seu cafetão.
Todo filme se concentra em como aquele trabalha influencia em sua vida, e o melhor, como ela se destaca em sua profissão. Como todo bom filme, ele te convence de que a personagem está certa em suas decisões, você entra na onda, e se prostitui com ela, inclusive, desaprova o filho “moralista” que obriga a mãe a sair “da vida”.
O filme tem dois leitmotivs , um triste que acompanha Maggi do primeiro plano ao último – e lembra muito “I’m calling you” do Bagdá Café, só que menos emocionante – e outro, um pancadão com gemidos que toca sempre que aparece a boate. O mais bonito do filme é o momento em que essas duas músicas se encontram, marcando a total transformação da personagem e uma maneira bonita de representar um enlace
Irina Palm, por vários elementos, lembra os melodramas canônicos: argumento conhecido, músicas muito presentes, prostituta de bom coração, cafetão bonzinho, interpretação canastrona. No entanto, a maneira “distante” (apesar de ser um filme centrado numa personagem) e sua abordagem “seca” deixam o filme com a estranheza que caracteriza os melodramas contemporâneos. É um melodrama cínico, que não emociona, não comove, com uma atriz que não arranca nenhuma comoção da platéia. Se interpretado pela Kathy Bates talvez seria uma choradeira e, provavelmente, uma chatice também. É um bom filme, mas essa distância, ao mesmo tempo que dá a originalidade ao filme, torna-o frio demais para que eu adore, mas de qualquer maneira, imperdível.

Sunday, May 25, 2008

Indiana Jones e o reino da caveira de cristal


Cinema é a maior diversão. Parece que o trio Lucas-Spielberg-Ford abraçam felizes esse slogan do Severiano Ribeiro. Nesse novo filme da franquia é exatamente isso, um filme da franquia que em nada avança em relação aos demais. Mas será que não era isso o que todos queríamos: fórmula testada e diversão garantida?
A verdade é que não esperava mais que isso: um bom filme da ação, com um herói coroa, mas ainda charmoso, e uma história criptografada para os espectadores descobrirem aos poucos. O engraçado nesse filme é que os heróis, tirando um personagem são todos “velhos” para o padrão Hollywood. É um elenco de velhos tentando salvar o mundo e isso seria cômico, se não se tratasse de Indiana Jones.
Mas por seguir uma fórmula antiga, eficiente e pouco usada ultimamente, o filme se torna um pouco diferente do que estamos ultimamente acostumados a ver nos filmes de ação. Não lembra em nada os interessantes Cloverfield ou Homem de ferro, nem os insossos Piratas do Caribe 3 e O código Da Vinci. É diferente. É claro que possui todos os clichês de filmes sobre guerra fria, mas isso não incomoda. Faz parte do pacote, até a verborragia das explicações, e o fato de um Rio da Amazônia cair em Foz do Iguaçu, que por sua vez, esconde uma pirâmide no Peru. Enfim, nada disso incomoda, apenas lembra os filmes de ação à moda antiga, como os filmes de 007 com Roger Moore que têm o seu encanto. O filme é legal, empolga e não nos faz de idiota. Tem consciência de que esse filme irá entreter, apenas, e cumpre o seu papel.
Mas no final (E SE VOCÊ NÃO VIU O FILME NÃO LEIA ESSE PARÁGRAFO)... ele me incomoda pelo simples fato de que enfiaram os ETS em todo aquele clima místico de culturas antigas, tão caro aos filmes da série. O que tem o ET a ver com isso? Por que Spielberg tem botar ET em tudo, de uns anos para cá? Faz até sentido, mas me desagradou profundamente. Deslocou aquele história simpática sobre forças ocultas de deuses antigos para mais uma história de ET, que, na verdade, por não se ter uma comprovação, é uma ótima explicação para tudo, quase um Deus ex-machina moderno. Uma solução mística ou mágica seria bem mais interessante, mas deslocar tudo para a ufologia, fez o filme perder vários pontos.
Mas como esse desfecho dura pouco, o estrago não foi pior. O filme ainda assim diverte, e é melhor o que trailer. E só isso. Mas quem espera mais? Talvez o Spielberg e só ele

Monday, March 03, 2008

Onde os fracos não têm vez


O filme impressiona pela economia de palavras, de gestos, de sentimentos. É Árido como sua paisagem. A perseguição desenfreada, grande mote do filme, acaba sendo uma maneira de os irmãos Coen exercitarem a direção. E que direção. Tem momentos no filme que a tensão sobe nas alturas. É interessante também como uma adaptação literária pode ser tão econômica de palavras com exceção de dois momentos cruciais: o início narrado em off por Tommy Lee Jones, no qual ele situa “a terra de Malboro” a que iremos assistir, e no final, num diálogo entre o mesmo personagem e sua esposa, em que toda sua desilusão é explicitada, confluindo com a fala inicial.Onde os fracos não têm vez trata-se de um filme sobre a desilusão de um velho xerife do interior dos Estados unidos, que está desencantado do mundo, e pouco consegue influenciar com a sua “autoridade”, daí o nome no original “onde os velhos não têm vez” fazer muito mais sentido que o traduzido.
O filme acompanha um sanguinário matador que não consegue ser impedido por ninguém, enquanto ao policial velho se relega o papel de tão coadjuvante, que nenhuma ação sua interfere na história do filme. Onde os fracos não têm vez mostra a perseverança/loucura de um matador em busca de seu alvo, o absolutamente fantástico Barden, enquanto outros se corrompem pelo dinheiro. Barden é perfeito no seu papel, e a cena na obriga um caipira a escolher cara ou coroa em troca de sua vida, é impressionante, uma das melhores do filme. É nesse momento que ele além de ser uma assassino a sangue frio, já sabido do público, ele se mostra um louco.
Os diálogos não são muito profundos, são certeiros e diretos, no filme não sobram palavras, planos ou cenas. Também em nada faltam atuações, direção e roteiro. A fotografia opta por poucas cores, num mundo onde elas realmente não têm vez.

Antes de partir


Jack Nicholson e Morgan Freeman justificavam o filme. Juntar esses grandes atores num roteiro singelo, mas agradável, mesmo se falando que ambos vão morrer no final. O filme é grandioso ao juntar esses grandes astros, ao percorrer diversos lugares fantásticos do mundo, mas não deixa muitas marcas. É leve, agradável, com piadas bobas, quase uma sessão da tarde, mas feita com qualidade. Com certaza agrada e repito, vale a pena ver os dois em cena. Nicholson careteiro como sempre e Freeman que acerta no personagem culto, mas humilde e feliz.
O filme tem suas surpresas agradáveis, e o melho é que a morte aqui não serve de plot para chororó (usando a palavra da moda futebolística) é apenas uma etapa esperada do filme.
Enfim, The bucket list não está em nenhuma lista dos melhores do ano, mas vale à pena assistir e repensar um pouco a vida, ou apenas não pensar

Tuesday, January 29, 2008

4 meses, 3 semanas e 2 dias e PS: Eu te amo



A princípio, os dois filmes nada têm a ver, a não ser o fato de terem mulheres no elenco principal, e de que eu assisti aos dois no mesmo fim de semana. O primeiro filme, romeno, cru, mostra uma realidade dura, da qual não há escapatória, nem romance nem cor. O título esperto 4,3,2 não é à toa e muito interessante de se descobrir de onde ele veio. Passado na Romênia de 87, à beira de um colapso do comunismo, com seus tons cinzas, sua iluminação natural e pouca, uma direção de arte sóbria, trazem ao filme maior densidade, e uma atmosfera única. Os seus planos longos, geralmente em plano médio e muitas vezes acompanhando os personagens, aliado a diálogos realistas e cruéis, com uma realidade cruel, faz do filme um mergulho naquele momento horroroso pelo qual aquelas mulheres passam. É cruel (necessária a repetição) assistir ao filme, é uma angústia, e é exatamente essa a intenção do diretor. O filme é terrível, mesmo sendo sutil, mesmo omitindo crueldades, não só em imagens, mas também em diálogos. Só que chega um momento que essa hostilidade passa dos limites. O que estava sendo apenas sugerido, sutil, passa a ser escancarado, a crueldade aumenta, acompanhamos todos os passos da protagonista e sofremos em demasia com aquele mundo. O filme acaba com o que eu considero ser uma brincadeira com o público deixando bem claro onde está a câmera e que por isso, não devemos esquecer de que o que foi visto é cinema. Por mais real que isso possa ser. Genial, mas torturante de assistir, principalmente para mulheres.
Já PS: Eu te amo é mais uma comédia tragi-romântica sobre uma mulher, a maravilhosa Hilary Swank, que perde o jovem marido, o não menos maravilhoso Gerard Butler. Já dá pra sentir as diferenças quando o casal principal é interpretado por pessoas que não se encontram na vida real. São atores belíssimos, com a maquiagem e o figurino perfeitos e uma luz que nada mais faz do que realçar essa beleza. Bem diferente daquele sombrio 87 na Romênia, temos a Irlanda com lagos, campos verdes, pôr-do-sol e homens lindos.
Enquanto 4,3,2 é sobre um aborto clandestino, PS é sobre um homem morto que continua a mandar cartas românticas e fazer incríveis declarações de amor. No outro filme, os homens não trazem nada de bom, apenas a dor, ou a cobrança. As pessoas apenas seguem vivendo e a protagonista abdica de suas vontades, sua dignidade e até de seu corpo para ajudar as outras pessoas. O medo impera e o desamparo é quase total.
No filme americano, a insegurança é que aparece, mas num lugar bem confortável, com o aconchego de família e amigos. Com alguns clichês, e outros elementos originais, PS consegue ganhar o público e convence com sua história de amor. Assim como 4,3,2 convence com sua história de horror. E o mais interessante é realmente a resposta do público que compra as duas histórias e por isso apresenta reações diferentes.
Como já se falou, no filme romeno, as pessoas ficavam enojadas, agustiadas, amedrontadas, e as mulheres eram as que mais se impressionavam com a história. Já em PS, as mulheres também se impressionavam, mas de uma outra forma: o filme tocava a sensibilidade delas através do romantismo exagerado e toda uma mitologia de príncipe encantado que foi criada no universo feminino. O homem morto era o príncipe moderno com suas canções, seus músculos, seu “castelo” na Irlanda, seu “cavalo branco”, já que ele era um motorista de limusines. As mulheres entraram a fundo naquele mundo irreal e choravam aquele amor perdido, esse estereótipo perfeito do amor romântico, como se fosse o amor perdido de cada uma. O que a sala de cinema não deixa pensar é que, na verdade, não existe, tal coisa, e sempre que se vê esse estereótipo, os mais românticos sentem uma perda do que não existe, ou, no mínimo, uma projeção romântica exagerada de algum amor perdido. E a choradeira era geral no escuro. Chorava-se por tudo, por cada carta romântica, pela descoberta de um novo caminho, por um primeiro encontro perfeito, por clichês e mais clichês apresentados na tela, que na verdade, representam muitas fantasias românticas presentes nas pessoas. Chorava-se por si, por não ter ou ter perdido esse amor de cinema.
Muito diferente do filme europeu, nesse, as pessoas gostavam dessa “tortura” de chorar um amor perdido que não existe, de se emocionar com a história, que não cansa por mais longa que seja, porque atende de certa forma, às expectativas das pessoas, não no sentido de deixar o filme previsível, mas sim, agradável. 126 minutos mostrando um sonho dourado, passam mais rápido do que 113 de um pesadelo infernal.
Isso é que o cinema americano fez com o público, o moldou com sonhos e expectativas capazes de deixá-lo muito mais à vontade com suas histórias. Mas ainda assim, fico com o cinema americano, seus mitos e fantasias, do que com a dureza de outros lugares. Lembram-me Afrodite, Eros, Macondo, Buendía, Camelot e outros lugares fantásticos para os quais sempre faço questão de viajar.

O amor nos tempos do cólera


O filme é apenas um relato e perde totalmente a força do romance fantástico de Gabriel García Marquez. No entanto, Javier Barbem rouba a cena mais uma vez e consegue transformar o personagem apagado em um divertidíssimo conquistador. Fernanda Montenegro está bem como a devotada mãe latina e o casal principal quase deixa a desejar. O que incomoda mais que tudo é o inglês onipresente. Parece bobeira, mas o filme ser em inglês faz perder muito do charme do livro em espanhol, inclusive a sua atmosfera. Algo que não acontece com Pantaleão e as visitadoras, por exemplo. Nesse filme, Lombardi, o diretor, consegue construir uma atmosfera que condiz com a selva amazônica, e com o Peru. Em o amor nos tempos do cólera, parece apenas que se cumpre o protocolo de uma história a contar. Todos os tambores e calores que ecoam na memória de quem leu o livro, aquele amor forte que por causa de um cheiro, deixou de existir, aquela viagem interminável pela selva, tudo ou passa muito batido, ou simplesmente não está no filme, como o motivo do fim do amor. Reconheço que é difícil fazer uma adaptação, quanto mais de García-Marquez, e como é impossível colocar tudo na tela, deve-se escolher o que alguns elementos do filme para a adaptação. No caso do filme, privilegiou-se a cronologia da história, e deixou-se de lado vários elementos menores, como a história do papagaio, e, repito, a viagem para o interior, a frenético e astuta correspondência entre eles. Elementos pequenos, sim, mas que tornam a história colombiana, e mais, um legítimo produto de seu autor.
Mas por incrível que pareça, o filme não é ruim, só não é maravilhoso como é o livro. Conta a história e diminui o amor inicial, até para ser verossímel, já que o filme privilegia a parte seguinte do livro. Mas perde e perde muito das palavras do autor. É um filme que dá o seu recado, mas não deixa lembranças.

Tuesday, September 11, 2007

O amor nos tempos do noir

No silêncio da noite, além de muitos outros méritos, é um filme de personagens. Principalmente de um grande personagem: Dixon Steele, interpretado por Humphrey Bogart. Steele, obscuro, de alguma maneira, violento, impulsivo e irônico. Na maior parte do tempo, não esboça emoção alguma, mas, constantemente, irrompe em ataques de raiva.
Ele parece ser reapresentado cada vez que uma faceta nova aparece na tela: primeiro o Dixon irônico, depois o valentão, depois o artista, o violento, o apaixonado. A figura do roteirista encarada por Bogart, apesar de ser chamada várias vezes de celebridade, é completamente desglamourizada. Dixon, por vezes, se mostra assustador, sombrio, e não só devido a sua violência, mas a sua frieza. O momento em que relata o crime, com perfeição, é crucial, pois divide a platéia, assim como o casal que ouviu o relato, entre os que acreditam ter ele próprio realizado, e os que atribuem a sua experiência em matar pessoas em roteiros, como ele mesmo explicou.
No filme, os personagens não aparecem sem motivo, eles sempre têm uma função na história. Frances Randolph, a mulher que se oferece para Dixon no início da história, no final, será importante ao revelar que será a atriz do roteiro de Dixon, provocando o penúltimo ataque de raiva do personagem. A faxineira que deveria aspirar os apartamentos, mas nunca consegue, sugere que eles se casem para que ela consiga limpar com tranqüilidade, e Dixon aceita o seu conselho.
Também o agente de Dixon, imaculado durante o filme inteiro, é importante, fora outros motivos, porque Dixon, revoltado, soca-o, quebra os seus óculos, e causa horror a todos que assistem à cena. E sem esquecer do fabuloso Téspio, que representa um ator decadente, de uma Hollywood decadente de antes da guerra. Até algumas piadas aparecem para mostrar o contexto em que se passa a história como o “like show business, there is no business”.
Ainda sobre personagens, Laurel Gray (Gloria Grahame), merece destaque por ser muito bem construída. Uma mulher forte, que sabe o que quer e que não vê no casamento a solução rápida para seus problemas. Já deixou de se casar com um ricaço, e mesmo apaixonada, não consegue confiar em Dixon. Pode ser mulherzinha e mulherão ao mesmo tempo, assim como Dixon é canalha e apaixonado. Esses personagens têm dualidade e, por isso, são tão interessantes.
As seqüências são encadeadas com situações de causa e efeito, como, por exemplo, o livro que Dixon precisa adaptar está sendo lido por Mildren, que, por isso, é convidada para contar a história. Na entrada de casa, Laurel cruza o caminho, deixando a sensação de femme fatale. Por causa desse encontro, Laurel é a única testemunha de Dixon, eles se conhecem no depoimento, e assim por diante. Sempre há uma deixa na cena anterior que leva à seguinte.
Os diálogos são parte importantíssima nesse roteiro. São eles que dão ritmo ao filme, que apresenta poucos momentos de silêncio. É nos diálogos também em que se “plantam” pistas do que ocorrerá em seguida: quando o detetive de polícia fala para Dixon que ele encontrará a garota certa, ou quando a fala escrita para o roteiro que Dixon está adaptando, acaba servindo para a sua própria sorte ao final do filme.
A desconfiança do Chefe de Polícia também é importante porque contamina a todos, até à Laurel. Além disso, essa desconfiança traz consigo uma tensão flutuante. Nos momentos em que a desconfiança da idoneidade de Dixon é maior, maior é a tensão no filme como um todo. O mesmo acontece quando Dixon desconfia de Laurel, aumentando, mais uma vez, a tensão. Personagens como a massagista de Laurel e a esposa do policial implantam a dúvida sobre o caráter de Dixon, contribuem para a decisão de Laurel.
Ao mesmo tempo, existem pessoas que gostam de Dixon e confiam nele como o seu agente e o policial ex-companheiro da guerra. O filme é balanceado: ao mesmo tempo em que há tensão e desconfiança, existem momentos leves, cenas de amor e lealdade. Assim, o filme se destaca da maioria, por fugir do maniqueísmo e dos clichês do cinema. O assassinato, por exemplo, representa apenas o primeiro conflito e o pretexto para o casal se encontrar, e segue latente como motivo da desconfiança, mas suas pistas, suas causas, seus suspeitos não são analisados como nos filmes de detetive.
No jogo de transparência e obscuridade, ao caminharmos apara o final descobrimos que a pessoa mais clara no casal é Dixon. Ele não esconde quem é, o que quer, é “dinamite”, mas uma boa pessoa. Já Laurel teme o noivo e não revela, se programa para viajar sem que ninguém saiba, trava conversas com amigas contra seu amado. Enquanto ele parece ter encontrado o paraíso ao seu lado, para ela a felicidade parece nunca estar completa.
Os hábitos dos personagens têm uma função importante. Dixon, por exemplo, deixa o telefone tocar várias vezes durante todo o filme. Portanto, não se estranha quando ele não atende ao telefonema em sua casa, com a notícia da confissão do assassino. Outra ação recorrente é que Dixon sempre procura retratar suas inconseqüências: manda flores para Mildren, dinheiro para o sujeito que apanhou, oferece uma gravata nova a seu agente em quem acabou de bater.
No entanto, esses atos somados fazem Laurel tomar a decisão firme de deixá-lo, bem de acordo com a personalidade que lhe foi construída. A partir daí, sucessões de escolhas erradas acompanham os personagens. É a hora errada para casar, a hora errada para se descobrir a verdade, a hora errada para o telefone tocar. A tensão variável que acompanhava a história nesse momento transborda, trazendo efeitos drásticos. Dixon e Laurel nunca mais poderão ser felizes, é a história de amor ao avesso.
No silêncio da noite, em certos momentos, discorre sobre o ato de escrever. Em uma das vezes, Dixon afirma ser a cena de amor algo mais, não apenas o beijo, mas, por exemplo, ele preparando para ela com carinho o café da manhã, o que acontecia no momento. Uma crítica certeira sobre o clichê do romantismo. Dixon e Lauren são diferentes, fogem do lugar-comum. Eles, apesar do aparente anti-romantismo, viveram o pouco tempo que se amaram, e deixaram uma das mais belas histórias de amor do cinema.

Thursday, May 10, 2007

Casa vazia

Vi com atraso e em casa esse belíssimo filme. Eu sei, é imperdoável, mas antes tarde, não? Enfim, Casa Vazia é um dos filmes mais belos que assisti esse ano. É romântico sem forçar a barra e é onírico. Parece que o romance te deixa em outra dimensão, atravessa um universo paralelo onde só os apaixonados vivem. Mas principalmente, o filme não é só isso. A falta de diálogos faz o filme ser compreendido por completo. Não precisamos das palavras, aliás, os personagens que falam são confusos, e os que calam ganham a cumplicidade imediata da platéia. No fim, pensamos que a felicidade existe e renovamos as nossas promessas no amor e na delicadeza. É muito bonito mesmo, e só queria analisar esse ponto do filme. Cenografia, figurino, fotografia, trilha sonora, tudo supérfluo, não conseguimos prestar atenção, tamanha é a força do roteiro e da direção.